
Jornal Opção
18/4/2010
A guerra suja
Dossiê contra o tucano Marconi Perillo repete roteiro usado contra lideranças nacionais do PSDB, em 2006
Na disputa política o mais feio é perder, certo? Pergunta óbvia de resposta endereçada: é claro que não. Perder faz parte do jogo democrático do poder. Algumas vezes ganham certos setores políticos, noutras, a vitória é de outros. E assim deveria caminhar a democracia. Deveria, ressalte-se. Em algumas disputas, críticas pontuais sobre ações de governo ou mesmo de oposição são relegadas a um plano secundário, cedendo espaço para o pior dos mundos: as denúncias vazias.
É o que aparentemente está em curso atualmente na sucessão estadual de Goiás. No início da semana passada, após vários meses de intenso tititi nos bastidores, finalmente veio à tona um conjunto de documentos xerografados que supostamente revelaria um esquema milionário de movimentação financeira em paraísos fiscais do Caribe e em bancos pra lá de sigilosos da Suíça, tendo como beneficiário dessa dinheirama preta o senador tucano e ex-governador Marconi Perillo. A papelada comprobatória tem até cópias malfeitas de passaportes grosseiramente fajutos.
Nenhuma originalidade nessa ação em Goiás. Em 2006, exatamente como agora, em pleno processo sucessório, o alto tucanato foi acusado em ação idêntica. Um dossiê feito da mesma forma, com os mesmos truques de montagem e de falsificação grosseira acusava o ex-governador de São Paulo Mário Covas, o ex-homem forte do governo FHC, Sérgio Motta (ambos já falecidos), o ex-governador paulista José Serra e o próprio ex-presidente Fernando Henrique Cardoso de manter uma bolada de 368 milhões de dólares em paraísos fiscais.
Na época, conforme farto noticiário nacional, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, após se defrontar com a inquestionável realidade de que alguns petistas estavam envolvidos na história, alcunhou os envolvidos de aloprados. O termo pegou.
Versão 2010
Pois a alopração pode ter revivido em Goiás, nesta eleição, com novos protagonistas. O 'dossiê Marconi' é quase uma cópia do dossiê contra os tucanos inventado em 2006. Até os valores são semelhantes. Na época, acusava-se o quarteto tucano de manter 368 milhões de dólares no exterior, quantia que, pelo câmbio médio do meio da semana passada, é equivalente aos 650 milhões de reais que o novo dossiê computa ao senador Marconi Perillo. Sequer, então, nesse aspecto houve criatividade.
Como se sabe, o dossiê de 2006 não teve qualquer influência sobre o resultado das eleições. O presidente Lula, que liderava com alguma folga a corrida pelo segundo mandato, apenas confirmou o que já se esperava dele eleitoralmente. Seu adversário, o ex-governador Geraldo Alckmin conseguiu de classificar para a disputa no segundo turno, mas nunca chegou ao ponto de realmente ameaçar a vitória de Lula.
O roteiro do dossiê de 2006 contra Mário Covas, FHC, José Serra e Sérgio Motta está sendo repetido agora em Goiás da mesmíssima forma contra Marconi Perillo. Até na guerra de versões, embora se ressalte com inegável diferença na autoria e na sua utilização. Assim como em 2006, a oposição ao tucano diz que cabe a ele provar que o dossiê é falso, o que se revela uma impressionante e absurda inversão de ônus da prova.
É difícil saber o que virá em seguida. Em 2006, a versão fantasiosa do dossiê tucano foi prontamente esclarecida, ainda que até hoje alguns políticos que fazem oposição ao PSDB falem sobre o documento. Naquela época também se apurou rapidamente como o tal dossiê foi usado por alguns setores da campanha de Lula, os tais aloprados. Os tucanos de Goiás querem que a mesma coisa aconteça agora, com a identificação dos autores do novo dossiê. Para a população, o mais importante é saber se as acusações que constam na documentação são falsas ou não.
Como antes, há pistas bastante relevantes. O deputado federal Sandro Mabel, presidente regional do PR e principal avalista político da candidatura do ex-prefeito Vanderlan Vieira ao governo do Estado, foi apontado por um repórter da agência Estado como intermediário do dossiê contra Marconi junto ao secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho. Em entrevista a veículos de comunicação de Goiás, Mabel negou que tenha falado sobre esse documento com o ministro de Lula.
O fio dessa meada começa, portanto, nesse ponto. O Senado, provocado por Marconi Perillo, quer que Gilberto Carvalho fale oficialmente sobre essa história e, especialmente, a respeito de possível encontro ou não com o deputado goiano. Mais do que isso, ele poderá explicar outro aspecto abordado pela matéria jornalística da agência Estado, que garantiu que Gilberto não deu prosseguimento ao assunto por considerar o dossiê um conjunto de documentos fajutos. De qualquer forma, soube-se depois, através do ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, que o governo federal estaria sim investigando o caso. O Senado quer esclarecer toda essa história de vez. E esse igualmente é o interesse da população goiana.
O uso de armas não convencionais nas disputas eleitorais é uma prática mais ou menos usual no mundo todo. Em alguns países, como ocorreu recentemente no Irã, o governo utiliza até as forças do próprio Estado para constranger eleitores da oposição. Na década de 1970, nos Estados Unidos, país cantado em versos e prosas pela estabilidade de seu secular sistema democrático, o então presidente Richard Nixon tornou-se o primeiro chefe de Estado, e até hoje o único, a renunciar à Casa Branca após ter sido flagrado numa operação suja pela manutenção do poder.
Ferreirinha
Desde a redemocratização do Brasil, no início da década de 1980, inúmeros episódios de fraudes e jogo sujo foram registrados nas eleições. O auge talvez tenha ocorrido em 1990, na eleição do governador do Estado do Paraná. O cargo foi disputado pelo peemedebista Roberto Requião (que voltou a disputar e vencer as eleições, e é o atual governador reeleito do Estado) e José Carlos Martinez (já falecido), do PRN. A campanha foi intensamente disputada até que o programa eleitoral de Requião na televisão e no rádio levou ao ar um depoimento explosivo.
Os paranaenses ficaram escandalizados ao ver e ouvir um cidadão que ninguém conhecia dizer que era pistoleiro da família de Martinez, e que já havia matado desafetos. O nome dele, conforme apresentado no programa eleitoral, era "Ferreirinha". Sem tempo suficiente para se defender da fraude, Martinez, que liderava todas as pesquisas de opinião, perdeu a eleição, e a verdade só se tornou conhecida após a posse de Requião. Ferreirinha jamais havia existido enquanto pistoleiro.
O maior problema na utilização dessas armas não convencionais nos processos eleitorais nem é a morte ética do sistema democrático de escolha popular, ainda que ela ocorra. A grande questão nesses casos é a promiscuidade entre políticos e o submundo. Os falsos dossiês, por exemplo, são feitos por criminosos amadores ou profissionais, e esses, certamente, mantêm provas do envolvimento daqueles que encomendaram a peça, de maneira a ter sempre a possibilidade futura de obter mais lucratividade por conta da manutenção do silêncio.
A situação é ainda pior quando, por consequência desse tipo de ação, a vontade da maioria dos eleitores é quebrada e modificada, com os diretamente envolvidos na formulação das fraudes podendo vencer as eleições. Em última análise, o poder público pode se tornar refém de bandidos.
O caso do dossiê tucano versão goiana precisa ser esclarecido rapidamente. Sob o sério risco de ser ver em Goiás uma escalada criminosa como ingrediente principal do que deveria ser apenas uma salutar e democrática disputa por votos.
18/4/2010
A guerra suja
Dossiê contra o tucano Marconi Perillo repete roteiro usado contra lideranças nacionais do PSDB, em 2006
Na disputa política o mais feio é perder, certo? Pergunta óbvia de resposta endereçada: é claro que não. Perder faz parte do jogo democrático do poder. Algumas vezes ganham certos setores políticos, noutras, a vitória é de outros. E assim deveria caminhar a democracia. Deveria, ressalte-se. Em algumas disputas, críticas pontuais sobre ações de governo ou mesmo de oposição são relegadas a um plano secundário, cedendo espaço para o pior dos mundos: as denúncias vazias.
É o que aparentemente está em curso atualmente na sucessão estadual de Goiás. No início da semana passada, após vários meses de intenso tititi nos bastidores, finalmente veio à tona um conjunto de documentos xerografados que supostamente revelaria um esquema milionário de movimentação financeira em paraísos fiscais do Caribe e em bancos pra lá de sigilosos da Suíça, tendo como beneficiário dessa dinheirama preta o senador tucano e ex-governador Marconi Perillo. A papelada comprobatória tem até cópias malfeitas de passaportes grosseiramente fajutos.
Nenhuma originalidade nessa ação em Goiás. Em 2006, exatamente como agora, em pleno processo sucessório, o alto tucanato foi acusado em ação idêntica. Um dossiê feito da mesma forma, com os mesmos truques de montagem e de falsificação grosseira acusava o ex-governador de São Paulo Mário Covas, o ex-homem forte do governo FHC, Sérgio Motta (ambos já falecidos), o ex-governador paulista José Serra e o próprio ex-presidente Fernando Henrique Cardoso de manter uma bolada de 368 milhões de dólares em paraísos fiscais.
Na época, conforme farto noticiário nacional, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, após se defrontar com a inquestionável realidade de que alguns petistas estavam envolvidos na história, alcunhou os envolvidos de aloprados. O termo pegou.
Versão 2010
Pois a alopração pode ter revivido em Goiás, nesta eleição, com novos protagonistas. O 'dossiê Marconi' é quase uma cópia do dossiê contra os tucanos inventado em 2006. Até os valores são semelhantes. Na época, acusava-se o quarteto tucano de manter 368 milhões de dólares no exterior, quantia que, pelo câmbio médio do meio da semana passada, é equivalente aos 650 milhões de reais que o novo dossiê computa ao senador Marconi Perillo. Sequer, então, nesse aspecto houve criatividade.
Como se sabe, o dossiê de 2006 não teve qualquer influência sobre o resultado das eleições. O presidente Lula, que liderava com alguma folga a corrida pelo segundo mandato, apenas confirmou o que já se esperava dele eleitoralmente. Seu adversário, o ex-governador Geraldo Alckmin conseguiu de classificar para a disputa no segundo turno, mas nunca chegou ao ponto de realmente ameaçar a vitória de Lula.
O roteiro do dossiê de 2006 contra Mário Covas, FHC, José Serra e Sérgio Motta está sendo repetido agora em Goiás da mesmíssima forma contra Marconi Perillo. Até na guerra de versões, embora se ressalte com inegável diferença na autoria e na sua utilização. Assim como em 2006, a oposição ao tucano diz que cabe a ele provar que o dossiê é falso, o que se revela uma impressionante e absurda inversão de ônus da prova.
É difícil saber o que virá em seguida. Em 2006, a versão fantasiosa do dossiê tucano foi prontamente esclarecida, ainda que até hoje alguns políticos que fazem oposição ao PSDB falem sobre o documento. Naquela época também se apurou rapidamente como o tal dossiê foi usado por alguns setores da campanha de Lula, os tais aloprados. Os tucanos de Goiás querem que a mesma coisa aconteça agora, com a identificação dos autores do novo dossiê. Para a população, o mais importante é saber se as acusações que constam na documentação são falsas ou não.
Como antes, há pistas bastante relevantes. O deputado federal Sandro Mabel, presidente regional do PR e principal avalista político da candidatura do ex-prefeito Vanderlan Vieira ao governo do Estado, foi apontado por um repórter da agência Estado como intermediário do dossiê contra Marconi junto ao secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho. Em entrevista a veículos de comunicação de Goiás, Mabel negou que tenha falado sobre esse documento com o ministro de Lula.
O fio dessa meada começa, portanto, nesse ponto. O Senado, provocado por Marconi Perillo, quer que Gilberto Carvalho fale oficialmente sobre essa história e, especialmente, a respeito de possível encontro ou não com o deputado goiano. Mais do que isso, ele poderá explicar outro aspecto abordado pela matéria jornalística da agência Estado, que garantiu que Gilberto não deu prosseguimento ao assunto por considerar o dossiê um conjunto de documentos fajutos. De qualquer forma, soube-se depois, através do ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, que o governo federal estaria sim investigando o caso. O Senado quer esclarecer toda essa história de vez. E esse igualmente é o interesse da população goiana.
O uso de armas não convencionais nas disputas eleitorais é uma prática mais ou menos usual no mundo todo. Em alguns países, como ocorreu recentemente no Irã, o governo utiliza até as forças do próprio Estado para constranger eleitores da oposição. Na década de 1970, nos Estados Unidos, país cantado em versos e prosas pela estabilidade de seu secular sistema democrático, o então presidente Richard Nixon tornou-se o primeiro chefe de Estado, e até hoje o único, a renunciar à Casa Branca após ter sido flagrado numa operação suja pela manutenção do poder.
Ferreirinha
Desde a redemocratização do Brasil, no início da década de 1980, inúmeros episódios de fraudes e jogo sujo foram registrados nas eleições. O auge talvez tenha ocorrido em 1990, na eleição do governador do Estado do Paraná. O cargo foi disputado pelo peemedebista Roberto Requião (que voltou a disputar e vencer as eleições, e é o atual governador reeleito do Estado) e José Carlos Martinez (já falecido), do PRN. A campanha foi intensamente disputada até que o programa eleitoral de Requião na televisão e no rádio levou ao ar um depoimento explosivo.
Os paranaenses ficaram escandalizados ao ver e ouvir um cidadão que ninguém conhecia dizer que era pistoleiro da família de Martinez, e que já havia matado desafetos. O nome dele, conforme apresentado no programa eleitoral, era "Ferreirinha". Sem tempo suficiente para se defender da fraude, Martinez, que liderava todas as pesquisas de opinião, perdeu a eleição, e a verdade só se tornou conhecida após a posse de Requião. Ferreirinha jamais havia existido enquanto pistoleiro.
O maior problema na utilização dessas armas não convencionais nos processos eleitorais nem é a morte ética do sistema democrático de escolha popular, ainda que ela ocorra. A grande questão nesses casos é a promiscuidade entre políticos e o submundo. Os falsos dossiês, por exemplo, são feitos por criminosos amadores ou profissionais, e esses, certamente, mantêm provas do envolvimento daqueles que encomendaram a peça, de maneira a ter sempre a possibilidade futura de obter mais lucratividade por conta da manutenção do silêncio.
A situação é ainda pior quando, por consequência desse tipo de ação, a vontade da maioria dos eleitores é quebrada e modificada, com os diretamente envolvidos na formulação das fraudes podendo vencer as eleições. Em última análise, o poder público pode se tornar refém de bandidos.
O caso do dossiê tucano versão goiana precisa ser esclarecido rapidamente. Sob o sério risco de ser ver em Goiás uma escalada criminosa como ingrediente principal do que deveria ser apenas uma salutar e democrática disputa por votos.
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