quinta-feira, 15 de abril de 2010

Planalto pede investigação sobre dossiê

Diário da Manhã
14/4/2010

O Palácio do Planalto defendeu o processo de investigação do dossiê sobre supostas contas do senador Marconi Perillo (PSDB) no exterior. Em entrevista ontem, o ministro de Relações Institucionais, Alexandre Padilha, disse que a análise dos documentos que mostram uma possível movimentação bancária em paraísos fiscais de um dos mais ferrenhos adversários do governo teve até agora uma tramitação correta. "O governo, as instituições, têm mecanismos próprios para acompanhar qualquer denúncia", disse. "Um funcionário, ao receber (uma denúncia) encaminha aos mecanismos próprios."

Reportagem publicada ontem por O Estado de S.Paulo informou que o dossiê contra Marconi Perillo circulou no Planalto antes de chegar ao Ministério Público e ao Ministério da Justiça. Ao contrário do que disse em nota emitida ontem (veja matéria ao lado), o líder do PR na Câmara, deputado Sandro Mabel (GO), confirmou ao Estadão que tratou com o chefe de gabinete pessoal da Presidência, Gilberto Carvalho, da existência das supostas contas do tucano em paraísos fiscais como Suíça, Ilhas Virgens Britânicas, Nassau e Bahamas. Carvalho disse, por meio de assessores, que conversou com Mabel sobre as suspeitas, mas não teria visto consistência nos elementos apresentados pelo deputado.

Ontem, após almoço com líderes de partidos aliados, o ministro Alexandre Padilha negou que o governo tenha usado a estrutura oficial para atacar Marconi, adversário de Lula. "De jeito nenhum. Esse governo não toma atitudes como essa em relação aos seus adversários nem em relação aos aliados", disse o ministro. "Esse é um governo que não utiliza os instrumentos que o Estado tem para atacar os adversários e atacar ou aproximar os aliados."

À tarde, o presidente em exercício, José Alencar, evitou comentar a notícia do dossiê que cita o senador tucano. Como é de praxe nas polêmicas envolvendo representantes do governo e mesmo da oposição, Alencar disse, em entrevista, que não tinha informações para esclarecer o caso envolvendo o senador tucano. Os papéis que estão sendo analisados pelo Ministério da Justiça citam supostas movimentações do tucano nos bancos Wachovia, UBS, Citibank, Credit Suisse e Bank of America.

Até 2005, Lula mantinha uma relação fraterna com o então governador de Goiás. O rompimento surgiu durante o escândalo do mensalão, naquele ano, quando o tucano deu entrevistas afirmando que tinha relatado pessoalmente ao presidente sobre a existência de um esquema ilegal de repasse de recursos para parlamentares. Na vice-presidência do Senado, Marconi também contrariou o Planalto em uma série de votações. No ano passado, o governo atuou em todas as frentes para evitar que o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), alvo de denúncias de corrupção, lavagem de dinheiro e nepotismo, fosse derrubado. O principal temor dos governistas era ver Marconi no comando da casa.

Mabel afirma que nunca teve acesso a documentos e se diz alvo de “picuinha”

O deputado federal Sandro Mabel (PR) negou ontem, por meio de nota à imprensa, que tenha tido acesso ao dossiê que estuda suposto envolvimento do senador Marconi Perillo (PSDB) em movimentações bancárias ilícitas. "Nunca tive em minhas mãos nenhum dossiê ou qualquer documento a respeito disso (da acusação ao senador)", afirmou. O deputado também negou que tenha dito ao jornal O Estado de S. Paulo, em entrevista anteontem, que esteve com o chefe de Gabinete da Presidência da República, Gilberto Carvalho, no início deste ano, para tratar sobre o dossiê, antes mesmo de ele ser repassado à Justiça.

"Em nenhum momento, durante a entrevista, disse ao jornal que teria estado no gabinete do senhor Carvalho para entregar-lhe qualquer documento ou papéis que contenham informações sobre o senador Perillo, mesmo porque jamais tive acesso a qualquer material de tal natureza", afirmou Mabel. Ainda de acordo com o deputado, ele está sendo alvo de "picuinha" política. "Estão envolvendo meu nome neste assunto porque sou adversário político do senador Marconi Perillo há muito tempo, o que é do conhecimento de todos", finalizou.

Na edição de ontem do jornal O Estado, Mabel teria afirmado que levou o dossiê com as supostas contas de Perillo no exterior (quando este circulava por gabinetes em Brasília) à antessala do presidente Lula e mostrou-o ao chefe de Gabinete do presidente. "Como o presidente (Lula) tem um desgaste com Marconi, eu falei com ele (Gilberto) sobre o assunto", teria dito Mabel à reportagem de O Estadão. O dossiê, que contém passaporte e documentos pessoais de Perillo, além de movimentação de contas bancárias no exterior, foi encaminhado ao Ministério Público de Goiás no início deste ano. Na mesma data, o promotor Fernando Krebs instaurou investigação criminal para apurar o caso. Em março, o DCRI foi solicitado para ajudar nas investigações. O nome do senador não foi relacionado no processo do MP, no entanto, porque ele possui foro privilegiado e só pode ser investigado criminalmente pelo Superior Tribunal Federal (STF).

Objetivos eleitoreiros

Na segunda-feira, o senador Marconi Perillo (PSDB) usou a tribuna para denunciar a fabricação de um dossiê contra ele. Disse que os documentos falsos, entregues em sua residência, têm o objetivo de incriminá-lo, especialmente por ele ser pré-candidato ao governo do Estado de Goiás nas eleições deste ano.

O senador afirmou que não tem nenhuma conta bancária fora de Goiás, nem mesmo a que recebe o seu salário de parlamentar. Também apontou falhas no passaporte, segundo ele, falsificado, como a grafia do nome de seu pai, Marconi Ferreira Perillo, que no documento não tem o primeiro sobrenome, e o fato de todos os seus passaportes serem de Brasília e o das contas ter sido feito em São Paulo.

O senador solicitou à Corregedoria do Senado, por meio do presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP), à Procuradoria-Geral da República e ao Ministério Público que investiguem a veracidade do passaporte e da procuração em seu nome, que foram usados para abertura e movimentação das contas.

O senador denominou o ato como "vil, malandro, baixo e abominável". Disse que não é possível "ficar calado e não se indignar diante de tamanha pilantragem". Completou dizendo que não é por esse caminho que irão (se refere a políticos goianos) ganhar as eleições no pleito de outubro. O promotor goiano Fernando Krebs foi procurado pelo DM, mas afirmou não ter nada a declarar sobre o caso. Gilberto Carvalho também foi procurado, mas não retornou as ligações.

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